Diário de Viagem de
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Jane Harris
Por que os homens - e os garotos - são tão esquisitos?
Quer dizer, com certeza eles conseguem muitas vezes ser bem BONITOS. Especialmente o Cal Langdon, tenho NOJO de reconhecer. Quer dizer, olhe só para ele, sentado ali naquela espreguiçeira, com o sol refletindo nas gotas d'água que ainda estão cobrindo os pêlos dourados dele.
Ai, meu Deus, não acredito que escrevi pêlos dourados.
Mas bom, não que ele tenha muito. Só a quantidade certa.
Só o suficiente para me fazer ficar imaginando quanto mais ele tem, sabe como é, embaixo do elástico do short.
Não acredito que TAMBÉM escrevi isso!!!!
Ainda assim... não interessa o quanto eles são bonitos - eu gostaria muito de saber como é que um homem cujo trabalho envolve ficar sentado atrás de uma mesa, digitando coisas, consegue ter bíceps tão definidos? -, os homens continuam sendo esquisitos.
Falando sério. É só olhar para o que estão fazendo agora. O Tarado por Modelos, o Mark e o Peter estão tendo uma conversa superprofunda - e chata - a respeito do telescópio espacial Hubble e do buraco negro - seja lá o que isso for - e estão COMPLETAMENTE envolvidos. Quer dizer, tanto quanto a Holly e eu nos envolvemos quando conversamos sobre E.R..
Estão falando sobre como o buraco negro - seja lá o que isso for - preenche a maior parte do universo, junto com a matéria negra, e como ninguém sabe o que essas coisas são (o que é um certo alívio, porque, hum, eu achei que estava deixando passar alguma coisa), mas parecem achar que é responsável pela força antigravitacional que provoca a expansão do universo, em vez de fazer com que se contraia, como acontece com todas as coisas submetidas às leis de gravidade.
Alô! Será que eles não percebem que estão na ITÁLIA? Será que não podem calar a boca durante CINCO MINUTOS e aproveitar a luz que brinca com as folhas verdes enquanto osol se põe, tingindo a piscina e a varanda com uma meia-luz dourada? Ou a maneira como o sol poente parece criar uma névoa nas montanhas retalhadas, fazendo com que pareçam borradas - menos no alto, onde o contorno das construções se destaca contra as enormes nuvens cor de púrpura por trás delas, no cenário posterior a uma tempestade fugidia?
É sobre ISSO que deviam estar falando. Sobre os milagres da natureza bem à frente deles. Não sobre algum buraco negro idiota, a bilhões de quilômetros de distância.
Ah, maravilha. As nuvens, aquelas que eu achei que estavam indo embora? Estão vindo para cá. Vai chover daqui a um segundo.
Ah, que se dane. Já está na hora do jantar mesmo.
Para: Cal Langdon <cal.langdon@thenyjournal.com>
De: Joan Langdon <joan.langdon@arteemtucson.com>
Assunto: Mary
Oi, Calvin! Sou eu, a mamãe. Não sei onde você está neste momento - continua em Riad? Sei que você apareceu no Chalie Rose - uma das minhas vizinhas me contou. Mas é claro que eu não vi, porque você sabe que eu não tenho televisão - então você deve ter voltado aos EUA para fazer isso.
Eu comprei o seu livro novo. Achei muito grande.
Mas está na vitrine de uma livraria que só vende mesmo livros populares, então tenho certeza dre que vai vender muitas cópias.
Mas bom, espero que você esteja bem, e que não esteja trabalhando demais... Mas como eu conheço você, sei que é o caso. Você sempre foi tão viciado em trabalho. Lembra na escola, quando você enfiou na cabeça que precisava entrar em Yale? O seu pai e eu não conseguimos entender. Qual é o problema de estudar em uma universidade estadual? Nós estudamos uma, e no final não foi tão ruim assim.
Mas, no fim, você conseguiu o que queria. Como sempre. Bom, quer dizer, você entrou. Pena que não nos deram auxílio financeiro suficiente para você poder estudar lá. Mas veja, deu tudo certo! Parece que estudar na Universidade Estadual do Ohio não doeu tanto assim!
E, pessoalmente, estou me dando muito bem - tenho uma exposição no Centro da Terceira Idade de Tucson no mês que vem, com a minha mais nova série de "bonequinhos de flapo". Realmente acho que estas últimas peças vão me colocar no mapa do mundo das artes. Eu me vejo como uma espécie em Matthew Barnye mulher de meia-idade. Sabe de quem eu estou falando? Daquele artista que fez nome com esculturas de vaselina?
Nem dá para descrever como é bom, Cal, finalmente poder expressar meu lado criativo. Eu me senti tão AMORDAÇADA durante todos os anos que passei ignorando a minha parte artística... Realmente espero que você tenha encontrado uma maneira de deixar a sua criatividade fluir, Cal. Sei que algumas pessoas chamam a escrita de arte, mas o que você escreve... bom, acho que não-ficção não conta. Você sempre despezou a mim e a sua irmã, eu sei, dizendo que éramos "loucas".
Mas não tem nada de "louco" na expressão criativa, Cal. Absolutamente nada.
Falando da sua irmã, eu queria saber se você tem notícias dela. Só estou perguntando porque tive um sonho muito estranho ontem à noite, em que você, o seu pai, a Mary e eu estávamos presos em um lago congelado e o gelo estava começando a rachar. Estranhamente, você foi o único que conseguiu se colocar em uma posição segura.
Então eu fiquei aqui me perguntando se você sabe se a Mary está bem.
Foi só isso.
Mamãe
Para: Cal Langdon <cal.langdon@thenyjournal.com>
De: Hank Langdon <hank.langdon@expat.net>
Assunto: Oi
Ei! O que você acha disto? Estou online! É! Eu sei! É um milagre!
Então, quando é que você vem me visitar? Comprei um conjunto de tacos extra. Os campos de golfe aqui não são nada ruins. Bom, você sabe, tirando os chicanos. Mas não dá para escapar dos chicanos na Cidade do México!
Ei, ouvi dizer que você conseguiu um belo contrato para um livro, ou algo assim. Será que dá para me emprestar uns dez mil para o seu velho? Eu me encrenquei um pouco com um sujeito por causa de um cavalo...
Bom, me avisa. E se você falar com a sua mãe e a sua irmã, diga para elas me deixarem em paz. Já me secaram completamente. Não sobraram nem dois pesos para esfregar um no outro.
Mañana.
Papai
Para: Cal Langdon <cal.langdon@thenyjournal.com>
De: Mary Langdon <m.langdon@internetcafenetwork.com>
Assunto: Você.
Bom, então, como você não respondeu ao meu e-mail, presumo que você não tem interesse em mim nem na minha vida. Acho que a palavra FAMÍLIA não significa nada para você.
Não importa. Eu posso me virar muito bem sem você - e foi exatamente por iso que o juiz me deu status de Menor Emancipada para começo de conversa.
AGora eu estou no Canadá, para o caso de você se interessar. Não que as MINHAS viagens possam interessar a alguém como você, sempre no jet-set internacional. Onde VOCÊ está agora, aliás? Gstaad? Ougoudagou? Em algum lugar mais fabuloso do que onde eu estou, tenho certeza.
Não se preocupe (e até parece que você se preocuparia), tenho certeza de que vou ficar bem. Ainda não está fazendo muito frio por aqui. Bom, tirando à noite. Mas eu estou dormindo na Kombi. Pena que o Jeff não pode deixar a calefação ligada à noite, porque acaba com a bateria.
A gente se vê na próxima vida.
Mare
Para: Mary Langdon <m.langdon@internetcafenetwork.com>
De: Cal Langdon <cal.langdon@thenyjournal.com>
Assunto: Res: Você
Qual é o seu problema? Por que você anda dormindo na Kombi de um sujeito qualquer? Achei que você já tinha aprendido a lição levando em conta o que aconteceu da última vez.
E eu respondi SIM ao seu último e-mail. Se você parasse de trocar seu endereço de e-mail a cada dois dias, quem sabe assim receberia as mensagens das pessoas aquem escreve de vez em quando...
Posso dar mais mil dólares para você, se me disser para onde enviar. Mas o que aconteceu com os mil que eu mandei no mês passado? Aliás, o que você está fazendo com todo o meu dinheiro? Se eu descobrir que você está gastando todo o meu dinheiro em drogas, Mary, não vou dar nem mais um tostão. Você entendeu? Porque acho que você não entendeu bem a parte da Emancipação de ser uma menor emancipada. O que, aliás, com 25 anos, você não é mais.
Cal
Para: Cal Langdon <cal.langdon@thenyjournal.com>
De: Mary Langdon <m.langdon@internetcafenetwork.com>
Assunto: Res: Você
Ai, meu Deus, você é o melhor irmão mais velho que qualquer garota JÁ teve! Mande o dinheiro para a agência da Western Union aqui em Whiste, Colúmbia Britânica.
E nós precisamos morar na Kombi porque todos os apartamentos e os quartos de hotel baratos estão ocupados com os participantes do compeonato de esportes radicais de inverno, que estão se preparando para a competição. Mas tudo bem, porque estamos vendendo TONELADAS de merdas em tie-dye. Parece que a gente nem consegue produzir peças suficientes.
E eu preciso do dinheiro para as minhas necessidades, como absorventes e comida e essas coisas, até a gente começar a ter lucro. Caramba, Cal. Eu nunca usaria drogas. Preciso dos meus neurônios para a minha ARTE.
Obrigada - você é o MÁXIMO!!
Com muito amor,
Sua irmãzinha
Para: Mark Levine <mark.levine@thenyjournal.com>
De: Ruth Levine <r.levine@levinedestistassossiados.com>
Assunto: Olá!
Querido, sinto incomodar, sei que você está se divertindo no seu passeiozinho pela Europa, mas preciso saber com urgência: qual é o tamanho de suéter que você usa? Eu sei que você geralmente gosta de Grande, mas começou a freqüentar uma academia, não é mesmo? Então talvez você esteja mais forte e agora usa Extra Grande?
Só perguntei porque acontece que a Susie Schramm - você lembra, eu falei dela no meu último e-mail - faz tricô! É isso mesmo! Além de ser uma águia das leis de primeira linha e ter manequim 38, ela tricota no tempo livre (quer dizer, no tempo que sobra do trablho e do voluntariado na organização judaica B'Nai Brith, é claro).
E eu encomendei a ela um suéter para você. Parece que ela também não tem medo de usar cores ousadas. Eu sei como você gosta de amarelo, então é o que vai receber...
Ooops, era para ser uma surpresa de Hannukah! Ah, tudo bem!
Escreva logo e me diga.
Com amor,
Mamãe
Para: Holly Caputo <holly.caputo@thenyjournal.com>
De: Darrin Caputo <darrin.caputo@graficacaputo.com>
Assunto: Olá, aqui é a sua mãe
Holly, aqui é a sua mãe de novo. O Darrin disse que não é mais para eu usar o e-mail dele para escrever para você, mas você não atende ao seu celular quando eu ligo. Ou o seu celular não funciona na Europa ou você está usando aquele tal identificador de chamada quando vê que sou eu.
E isso não se faz. Compreendo que você não queira falar com a sua mãe. Apesar de ter sido eu que dei você à luz, e chorei de alegria quando o médico disse que você era menina, a filhinha que eu quase perdi as esperanças de ter depois de ter três meninos seguidos.
Estou escrevendo agora porque encontrei a mãe da Jane Harris no supermercado Kroger Sav-On ontem, e o que ela me disse me deixou muito perturbada. O seu pai diz que não é nada, mas eu não concordo. Eu estava dizendo à Sra. Harris como ela tem sorte de ter uma filha como a Jane, que só sai com ótimos rapazes cristãos, como aquele rapaz britânico muito agradável, Dave, e este outro que trabalha em um banco de investimentos, Malcolm.
E a Sra Harris me diz: "Mas o Mark Levine também é muito simpático. Ouça, Marie, você tem que parar de pensar nisso como se fosse perder uma filha, mas sim como se fosse ganhar um filho."
O que a Claire quis dizer com isso? Por que ela acha que eu vou ganhar um filho? Eu não preciso de mais nenhum filho, já tenho quatro... cinco, se contarmos o Roberto, do Darrin. Holly, você não está pensando em fazer nenhuma bobagem enquanto estiver na Itália, está?
Espero que você saiba que, se se casar com este rapaz, Mark, ele NÃO vai ser um filho para mim. Da mesma maneira que você não vai ser mais minha filha. Pense nisso, eu imploro.
Vou rezar por você.
Sua mãe